
"assim, pé ante pé, que o barulho rígido dos passos apressados magoa as almas nuas. assim, sem pressas ou correrias de [sem] sentidos. descobrir-te aos bocadinhos, saborear-te aos pedacinhos [a tua mão, tão lenta tão límpida, pela curva reformulada das minhas costas]. assim, num segredo e num suspiro, como se o universo inteiro se suspendesse esquecido num sussurro nosso. assim, meigo – que o tempo me dói tanto quando me arrasta apressado pelo chão finito das coisas que não chegaram a ser vividas. contigo não quero lágrimas.
senão as que forem choradas. só a pasmo e a ternura das descobertas que não sabem deixar de o ser. redescobrir continuamente o encanto de todas as virgindades renovadas – os teus lábios eternos e pacientes pousados na pele renascida do meu ombro. tudo como se fosse a primeira vez [o primeiro beijo] o primeiro olhar. tudo como se me conhecesses desde sempre e me reconhecesses a cada segundo do Tempo que deixas transpirar comigo. assim, devagarinho.
assim, na valsa lenta em que me ensinaste a dançar – e, afinal, era tudo tão fácil. tudo escorrega tão docemente pelos nossos gestos quando deixamos que as almas corram livres por entre a nudez das palavras.
assim, num tormento manso, como se cada linha minha nunca tivesse sido tocada por outra pele que não a tua.
eu sei, não digas nada. não digas. nada. volta a respirar junto ao meu pescoço, refaz o percurso pelos caminhos do meu corpo – a tua mão sem me tocar, à distância física exacta do teu calor. hoje não me apetece acordar. debruça sobre mim a tua nudez e protege-me do brilho amargo de outras luzes."
agora... agora é tarde demais...
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