domingo, fevereiro 17

Luxúria


"Luxúria. Era a primeira vez que eu ouvia alguém a proferir a palavra com uma entoação (...) diferente de tudo o quanto até então escutara, não só para essa como para toda e qualquer palavra saída dos lábios de alguém. (...)
De repente, eu descobria algo que jamais suspeitara: que há palavras - e palavras. Isto é: palavras absolutamente inexpressivas, perfeitamente inócuas e insípidas - e palavras que, só de as pensarmos, assumem instantaneamente forma e volume, tomam cor, som, ganham dimensão, sabor, enfim: adquirem vida própria. Luxúria é uma delas. Mais: luxúria é mesmo a única palavra que reúne tudo isso em simultâneo. Cheira a esperma, suor e saliva. Sabe a pele, a mel, a sal. E tem cor: é vermelha, daquele vermelho intermédio entre o alaranjado quente das labaredas e o pique brilhante do sangue vivo. (...)
Acho mesmo que é das raras palavras com som próprio. (...) É auto-suficiente. Diz-se luxúria e escuta-se, automaticamente, um roçagar macio de lençóis. De preferência de cetim - e cetim roxo. (...) Diz-se luxúria - e tudo ao nosso redor e dentro e fora de nós soa ao sincopado suave de gemidos lânguidos, ao ofegar de narinas em transe, ao roçar da pele sobre pele nua.
Não espanta assim que dos sete pecados capitais este seja, justamente, o que mais atemoriza com as penas do Inferno. (...) Se há de facto uma categoria de palavras assassinas, acho que luxúria representa o crime perfeito."


Guilherme de Melo in Os 7 Pecados Capitais