domingo, junho 5

Homenagem aos imortais...


"Dizem que há uma caixinha dentro do peito onde a tristeza se guarda. Gostava de a encontrar, mas como nem sequer sinto o peito, é um bocado complicado. Eu até tenho um coração saudável mas como há muito tempo que não sinto o sangue estremecer, não tenho peito, se o peito é aquele lugar onde a alma repousa e se acende, se o peito é onde dói quando se sangra de saudade, se é no peito que se ouvem as batidas mais rápidas que nos fazem sentir mesmo vivos.
(...) Ter uma parte de nós que pertence a um morto é uma coisa muito estranha e eu não quero viver assim, prefiro cruzar os céus e ficar a ver o corpo que já não me pertence.
Por isso, numa destas manhãs em que o nevoeiro descer outra vez a cidade, vou mesmo ensaiar o meu primeiro baptismo do ar e estrear-me nessa vida de pássaro que tanto invejo e pode ser que no derradeiro instante desse voo, que imaginarei nupcial, o volte a ver a cruzar os céus comigo, atravessando a vida com a morte, atravessando a parede da cozinha onde o crucifixo marca as horas, atravessando outra vez o meu peito e pode ser que então, nesse momento eterno e irrepetível que é e será o nosso reencontro, a caixa se abra e escoe finalmente toda a tristeza que carrego no peito que não sinto."